Através de uma experiência sensorial, ou seja, das vivências e do conhecimento adquirido de práticas cotidianas podemos afirmar que, diariamente, vamos preenchendo a “tábula rasa” da vida. E neste sentido, a ideia difundida pelo filósofo John Locke era de que as pessoas nascem sem experiência alguma e no decorrer dos anos todo o processo de conhecimento, seja do saber ou do agir, é desenvolvido através das experiências e vivências, e, assim, a “tábula rasa” vai sendo preenchida.
Ao vivenciarmos a ocorrência de uma catástrofe nas dimensões que o povo gaúcho enfrenta estamos a preencher mais um capítulo desta “tábula rasa” da vida. Um capítulo difícil, sofrido e que, sem dúvida alguma, marcará gerações.
E é por tal razão que a experiência sensorial decorrente da catástrofe deverá trazer o melhor que podemos entregar para àqueles que não conseguiram passar ilesos, ou seja, para todos que tiveram perdas de familiares, de bens móveis e imóveis, e, principalmente, perda da memória afetiva vinculada às lembranças materializadas, por exemplo, em fotos. O impacto emocional e social da perda é imensurável.
Neste momento é preciso ter cognição plena que a melhor forma de compreender a condição dos que foram atingidos é utilizar da sensibilidade e da razão e nos colocar em seus lugares, e, acima de tudo, realizando ações de modo a trazer o conforto ao praticar um sorriso, um abraço caloroso, um segurar de mãos, um olhar de aconchego e compreensivo ou uma conversa através da utilização de expressões positivas mostrando interesse pelo diálogo. Assim, a razão e sensibilidade deverão ser marcos relevantes para o auxílio de todos que estão passando pelo momento difícil da perda uma vez que o “eu” diante de outro “eu” não diminui a dignidade, mas sim a ratifica.
Aliás, a letra do hino Riograndense conclama ao pensamento sobre a força e reconstrução de um povo, especialmente na parte que chama para que seja mostrado “valor, constância” “nesta ímpia e injusta guerra”.
Com ajuda de muitos iremos vencer esta guerra. Será uma longa e dura batalha, mas temos persistência enraizada em nossos braços, em nossas almas, e, certamente, a empatia auxiliará na resolução deste momento triste porque trará o acolhimento para um povo sofrido cuja inscrição na “tábula rasa”, após tudo, trará incisões da vitória.
Porto Alegre, 14 de maio de 2024
Ricardo Sanvicente Ilha Moreira
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